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23 junho 2010

crônica de fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café


junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.





A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou

do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência,

que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao

episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de

esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico,

torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.

Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o

verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último

poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar

fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.





Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de

sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha

de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas

curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres

esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da

família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam

para algo mais que matar a fome.



Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro

que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom,

inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um

pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando

imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta

para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a

reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu

lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão

apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo

simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia

triang ular.



A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente.

Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e

filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O

pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os

observa além de mim.



São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta

caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola,

o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto

ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra

com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.

A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas

e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura --

ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de

bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim,

satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da

celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se

encontram, ele se perturba, constrangido -- vacila, ameaça

abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se

abre num sorriso.



Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura

como esse sorriso.





Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora

do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.

Fernando Sabino

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